quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Jude no Deserto Urbano

Capítulo 1: Ele.

Era uma terça-feira, igual a todas as outras terças-feiras, mas tinha cara de domingo. A maior animação que aquela tarde poderia oferecer era o vento frio batendo nos seus cabelos, os fazendo dançar no máximo um blues. Todos os outros estavam mortos. Não é metáfora, realmente estavam. A única que sobrevivera era aquela ruiva de olhos verdes inominada. 

Ah, a ruiva... Ele não sabia seu nome. Apenas que ela se abrigava logo ali próximo a onde outrora se encontrava a prefeitura. Já passou por ela umas duas vezes. Ela ofereceu uma garrafa de água. Ele aceitou. Tinha que aceitar, ou morreria brevemente. Do seu ponto de vista torto, analisou: "Ela salvou minha vida. Deus, ela salvou minha vida! Tenho que retribuir o favor." Era o seu jeito de aceitar o fato que estava começando a curtir a garota. 

Mas veja bem, quando o mundo passou pelo apocalipse, esse tipo de relação se extinguiu junto com todos os outros prazeres da vida. Sobrevivência era mais importante até mesmo que sexo, ainda que o segundo aumentasse a população, tornando mais fácil o primeiro. "BINGO! Eis a minha carta na manga.". 

Patético. 

Não adianta, Ele sempre foi meio tapado. Com suas deduções falhas. Quando a Terra era "habitável" ele teve apenas duas namoradas. Uma forçada pela família quando muito novo e outra começou numa festa (as pessoas daquela época costumavam chamar de Rave) e terminou junto com a ressaca. 

Voltando para o caótico presente. O plano era esperar a água acabar. Sim, aquela mesma que a própria dera. Aí iria até a prefeitura, procuraria a moça e tentaria socializar-se. Ao menos era auto-confiante. Literalmente, se ele não fosse, quem iria ser por ele? As baratas? Ah, sim... confirmou-se aquela teoria das baratas. Elas sobreviveram.

Fora dado o último gole. "É hora de partir.". Pegou a bicicleta carinhosamente apelidada de Jude (e os Beatles sobreviveram até aqui...) e pedalou para o oeste. 

Um comentário:

  1. " Não é metáfora, realmente estavam. ", isso tornou minha leitura muito gostosa, me identifiquei demais, com a maneira que tu usou ai , o narrador fica bem amigo do leitor, é como se os dois tivessem intimidade de amigo, para falar algo dessa maneira, desleixada, surrada rs. Apetece demais o texto ( para mim )

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