terça-feira, 27 de setembro de 2011

Jude no Deserto Urbano

Capítulo 2: Jude

Jude era de estimação. Na ausência dos fofos cachorrinhos que hoje serviam de comida para novos bichos que surgiram após o Dia D, era preciso de algo mais metálico para chamar de melhor amiga. Uma das poucas lembranças do passado, remetia às brincadeiras de criança, às idas ao campo de futebol, aos passeios mais banais. 

Jude já estava desgastada, precisava urgentemente de óleo nas correias, mas dava pro gasto. Fugir da escuridão do fim da tarde era muito mais prático sobre as duas rodas de sua fiel companheira. O relógio marcava duas horas e estava no meio do caminho e na penúltima música do Álbum Branco.

Ganhara seu iPod um dia antes do fim do mundo. Só colocara seu CD preferido dos Beatles com preguiça de passar um tempo colocando outras músicas. Consequência: apenas 30 músicas de uma mesma banda para ouvir pelo resto da vida. Ou pelo resto da bateria do iPod. Esperava que conseguisse viver mais que três pauzinhos.

Finalmente chegou. Deixou Jude encostada em um poste, seguiu a pé em busca da ruiva.
- Alô? Alguém por aí? Eu vim aqui outro dia e estava pens... AI!
Não conseguiu terminar a frase, a dor não deixou. Parecia penetrar seu pé e subir até a ponta do cabelo. Olhou pra baixo e conseguiu identificar uma armadilha de urso mal montada, mas pelo visto, eficaz para fazê-lo gemer de dor e permanecer imóvel. Envolta num manto escuro, surge a ruiva. Ela estava se protegendo, bem mais preparada que Ele. Ao certo viveria muito mais, a não ser que os dois ficassem juntos. Descobriu o rosto, olhou nos olhos do rapaz e:
 - O que você veio fazer aqui? 
- Ah, eu vim pedir água. A minha acabou e...
- Mas eu não lhe dei um dia desses?
- É... mas agora eu não tenho mais.
- Quer dizer que você quer que eu te sustente?
- Não é isso... eu apenas estou realmente necessitado. Será que dá pra tirar esse troço do meu pé?

Habilidosamente, Ela abriu a armadilha, tirou um lenço da sua coberta e amarrou no pé do rapaz. Não foi uma lesão tão grave assim, mas ia doer por um tempo. Bom saber, precisava armar melhor as próximas.
- Eu não vou te dar mais água, entendeu? Agora, sai daqui. Não é seguro ficar aqui fora. Eles estão com fome.
- Ok, me desculpe. Pera aí, eles quem? Tem outras pessoas por aqui?
- Acredito que sim, mas não me refiro a pessoas. Ontem meus três cachorros amanheceram mortos e aquilo não foi causado por humanos. Agora dá o fora daqui que eu vou voltar pra dentro.
- Não, não, não. Espera aí. Não me deixe aqui sozinho, caramba. E se eles me pegarem? Você vai viver com esse peso na consciência?
- Na boa, quem liga pra consciência? Eu tenho que viver, independentemente da forma. Sai daqui.
- Então tá certo. Foi um prazer, eu vou embora. Adeus.
Baixou a cabeça, aproveitou a dor no pé e a explorou ao máximo, numa dramática caminhada mancando, montou em sua bicicleta e quando já ia dando a primeira pedalada, esperando que a moça clamasse a sua permanência, se desculpando da grosseria, ouviu um alarmante:

- CUIDADO!
Olhou pra trás, a menina apontava para suas costas, olhou pra frente e lá vinham três bichos. Pareciam lobos, mas eram maiores, os dentes pra fora, os pelos irregulares e melados de sangue. As patas com garras tão grandes que pareciam desejar perfurar qualquer presa que passasse pela frente. Rosnava o som da morte.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Jude no Deserto Urbano

Capítulo 1: Ele.

Era uma terça-feira, igual a todas as outras terças-feiras, mas tinha cara de domingo. A maior animação que aquela tarde poderia oferecer era o vento frio batendo nos seus cabelos, os fazendo dançar no máximo um blues. Todos os outros estavam mortos. Não é metáfora, realmente estavam. A única que sobrevivera era aquela ruiva de olhos verdes inominada. 

Ah, a ruiva... Ele não sabia seu nome. Apenas que ela se abrigava logo ali próximo a onde outrora se encontrava a prefeitura. Já passou por ela umas duas vezes. Ela ofereceu uma garrafa de água. Ele aceitou. Tinha que aceitar, ou morreria brevemente. Do seu ponto de vista torto, analisou: "Ela salvou minha vida. Deus, ela salvou minha vida! Tenho que retribuir o favor." Era o seu jeito de aceitar o fato que estava começando a curtir a garota. 

Mas veja bem, quando o mundo passou pelo apocalipse, esse tipo de relação se extinguiu junto com todos os outros prazeres da vida. Sobrevivência era mais importante até mesmo que sexo, ainda que o segundo aumentasse a população, tornando mais fácil o primeiro. "BINGO! Eis a minha carta na manga.". 

Patético. 

Não adianta, Ele sempre foi meio tapado. Com suas deduções falhas. Quando a Terra era "habitável" ele teve apenas duas namoradas. Uma forçada pela família quando muito novo e outra começou numa festa (as pessoas daquela época costumavam chamar de Rave) e terminou junto com a ressaca. 

Voltando para o caótico presente. O plano era esperar a água acabar. Sim, aquela mesma que a própria dera. Aí iria até a prefeitura, procuraria a moça e tentaria socializar-se. Ao menos era auto-confiante. Literalmente, se ele não fosse, quem iria ser por ele? As baratas? Ah, sim... confirmou-se aquela teoria das baratas. Elas sobreviveram.

Fora dado o último gole. "É hora de partir.". Pegou a bicicleta carinhosamente apelidada de Jude (e os Beatles sobreviveram até aqui...) e pedalou para o oeste. 

sábado, 17 de setembro de 2011

Fodido Jack

Eu sou os braços cansados do Jack.
Meus serviços foram postos em cheque.
Fui bravo, destemido e ousado.
E agora, não passo de um usado.

Eu sou o bolso vazio do Jack.
Que vergonha praquele que já foi chefe.
Rico, astuto, milionário.
Hoje um puto de um mendigo otário.

Vítima da ganância e problemas
Dos clichês que falam do sistema.
Da derrota, da falência.
Crack da bolsa, consequência.
Eu sou o fodido Jack.
Minha vida, ninguém merece.

Eu sou o sapato furado do Jack.
Me calce, pareça um moleque.
Fui Prada, vermelho, luxuoso.
Sou furado, dedos expostos, vergonhoso.

Eu sou o terno Armani do Jack
Fui comprado por um gordo cheque.
Risca de giz, sob medida.
Você nunca me vestirá na vida.

Só porque hoje estou acabado,
Não quer dizer que não posso ser usado.
Oh Jack, não me jogue fora,
Porque te aqueço de noite lá fora.

Não tem mais sua morada, nem a sua namorada.
Não bebe mais Dry Martini, nem dirige uma Lamborguini.
Não tem mais emprego, na cabeça nenhum cabelo.
Oh, Jack... Oh, pobre Jack...

Vítima da ganância e problemas
Dos clichês que falam do sistema.
Da derrota, da falência.
Crack da bolsa, consequência.
Eu sou o fodido Jack.
Minha vida, ninguém merece.